Devemos voltar um pouco no tempo!
Professor
Walter Antonio Bazzo
Engenheiro Mecânico, Doutor em Educação,
Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, Coordenador do
Núcleo de Pesquisas e Estudos em Educação
Tecnológica (NEPET), Colaborador da OEI
Muito se escreve, se discute, se argumenta!
Sempre na busca de explicações plausíveis
para este interminável desencontro de como tratar a educação
contemporânea, parece que os confrontos não se esgotam.
Nas últimas entrevistas, reflexões e debates disponíveis
nas inúmeras páginas da WEB, com principal ênfase
no site da OEI, alguns dizem que esta forma mais pública
de tratar a educação, querendo trazer todos os cidadãos
para as discussões que fazem parte de suas vidas, é
prejudicial para a verdadeira formação dos "experts"
que proporcionarão um futuro mais "feliz" para
todos seres humanos.
Outros, com argumentos para mim mais sólidos, dizem que
a ciência e a tecnologia são constructos humanos
e, portanto, merecedoras do entendimento de todos os homens comuns
além daqueles brindados pelo dom da pesquisa e da construção
do verdadeiro conhecimento pragmático.
É a sempre presente questão de que alguns apenas
são "taxados" a serem os responsáveis
pelos destinos do planeta Terra calcados na força de seus
conhecimentos tecnocráticos, deixando os pensamentos mais
metafísicos a cargo daqueles que vivem do devaneio de repensar
o desenvolvimento humano.
Nestas intermináveis confrontações tive
o privilégio de estar lendo "A conduta da vida"
de Lewis Mumford - encontrado num dos inúmeros Sebos1
da vida - e que cada vez me aproxima mais daqueles que acreditam
numa educação menos dogmática, mais humana
e por consequência mais em sintonia com os reclames da sociedade
atual. Cada vez é mais necessária uma educação
ampla onde não apenas o desenvolvimento de novos aparatos
tecnológicos sejam o ponto de chegada. Precisamos refletir
sobre suas repercussões. Nunca foi tão claro este
posicionamento pelos fatos e acontecimentos que presenciamos no
dia-a-dia. Antes de criarmos apenas discussões destituidas
de racionalidade pela premência de modificações,
talvez seja necessário voltarmos a refletir sobre o que
já se escrevia há muito tempo. Penso que nesta minha
colocação os escritos de Lewis Mumford são
plenos de atualidade. Não podemos rasgar estas reflexões
em busca de soluções extemporâneas que sempre
caem no lugar comum de ter que produzir mais riquezas independentemente
dos métodos e recursos para consegui-las.
"Talvez, para nossa felicidade, exista uma pressão
negativa no sentido da transformação do homem moderno.
Sem isso, as vantagens e oportunidades positivas talvez não
dessem para impulsioná-lo à ação.
Chegamos a um ponto da história em que o homem se tornou
o mais perigoso inimigo de si mesmo. Atualmente ele se gaba de
ter conquistado a natureza, abre mão de suas capacidades
mais elevadas, enfraquece a sua faculdade de ter pensamento coordenado
e ações disciplinadas, fora do limitado quadro da
ciência. Hoje, as funções mais importantes
do homem é que se tornaram automáticas e restritas,
ao passo que as menos significativas se tornaram espontâneas
e irreprimíveis. Fizemos parar a nossa íntima capacidade
de criar, por força dos impulsos externos e das ansiedades
sem importância, sujeitos a interrupções constantes
pelo telefone, pelo rádio e pela imprensa insistente, medindo
as nossas vidas pelo movimento de uma esteira rolante que não
podemos controlar. Ao mesmo tempo, damos importância ao
estômago, aos músculos, ao aparelho genital - aos
reflexos animais, que produzem consumidores obedientes, homens
domados, súditos políticos escravizados e autômatos
que se movimentam por meio de botões. A falta de reação
ante uma situação dessa ordem é um sintoma
da própria doença que a provocou. Ao contrário
das suas máquinas eletrônicas de pensar , a civilização
moderna construída pelo homem não é tão
planejada que, ao ocorrer um êrro em seu corpo, dê
o sinal de alarme e pare de funcionar. Na verdade, os nossos sentimentos
e emoções, que normalmente deveriam dar êsses
sinais, foram deliberadamente extirpados, para que a máquina
pudesse trabalhar mais suavemente. Pior que isso, as nossas mentes
se acostumaram tanto com o que é especializado, fragmentário,
particular, e é tão incomum encarar a vida como
um sistema dinâmicamente inter-relacionado, que não
podemos, por nós mesmos, reconhecer quando a civilização
em sua totalidade está em perigo, nem aceitar imediatamente
a noção de que nenhuma parte dela estará
salva ou intacta, antes que o todo esteja reorganizado. Daí
o falso tom de otimismo que os povos continuam a exibir, não
obstante ponderáveis áreas da civilização
já estarem destruídas e de existirem setores, talvez
ainda maiores, a ponto de perderem a sua importância. (LEWIS
MUMFORD, A conduta da vida, p. 23,24, ano de edição
1959, Editora Itatiaia, Belo Horizonte, Brasil)2 .
Será que precisa falar ou escrever mais alguma coisa
afora algumas adaptações tecnológicas referentes
ao mundo atual? Argumentos mais fortes poderiam surgir hoje a
nos levar a repensar nossa civilização? Creio que
não. Aliás, é bom reforçar que Mumford
escrevia isso há quase 80 anos. Talvez voltando no tempo
possamos reforçar a nossa convicção de que
ainda tateamos no escuro na tentativa de uma educação
voltada realmente ao homem em busca de uma vida plena de valores
não determinado aos toques mágicos dos botões
eletrônicos, apenas.
Notas
1 No Brasil ganham este nome as livrarias que vendem livros raros,
antigos e as vezes mais em conta e que trazem contribuições
fantásticas para nossas reflexões. Recomendo fortemente
este costume de visitas rotineiras a estes locais. Voltando no
tempo, ganhamos inestimáveis tratados que nos auxiliam
a compreender o presente.
2 A redação original foi mantida - sem qualquer
correção para as novas regras gramaticais - para
preservar o contexto da época. Tal texto foi traduzido
para o português na década de 1950.
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